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Royal Enfield Himalayan 450: o que quem realmente pilota tem a dizer

Três anos atrás, entrevistei Flávio Bressan aqui no Portal Gasolina quando eu mesmo acabava de adquirir uma Himalayan 411 — por culpa dele, aliás, metade da culpa. O vídeo virou um dos mais assistidos da história do canal: mais de 20 mil views e uma caixa de comentários que não parava.


Desde então, a Royal Enfield lançou uma moto completamente diferente com o mesmo nome. E o Bressan, como era de esperar, não só comprou a 450 como levou ela para a Transamazônica.


Nada mais justo do que perguntar para ele o que pensa.


Veja a entrevista completa



"É como comparar um Fusca com um Gol GTI"

A primeira coisa que Bressan deixa clara é que comparar a Himalayan 450 com a 411 é um erro de categoria. "A única coisa igual é o nome e a medida do pneu dianteiro", disse ele. Motor novo, refrigeração líquida, painel TFT, chassi reforçado — são motos de gerações diferentes, com propostas distintas.


A 411 era uma moto de aventura com limitações conhecidas e custo de entrada acessível. A 450 é uma moto versátil que propõe fazer tudo bem feito: cidade, asfalto longo e off-road — sem ser especialista em nenhum dos três, mas sem decepcionar em nenhum.


A pergunta certa não é "qual é melhor". É para quem é cada uma.


Para quem é a Himalayan 450


Na visão do Flávio Bressan, o público-alvo da 450 é o motociclista que não quer se limitar pelo equipamento. "O público que precisa de uma moto para resolver tudo e não se limita. Onde ele quer ir, a moto vai."


Isso tem implicações práticas. A moto não foi feita para o piloto que quer desempenho máximo no asfalto — existem opções melhores para isso. Nem para o aventureiro extremo que vai encarar trilhas técnicas sem voltar. A Himalayan 450 é para quem usa a moto como instrumento de vida, não como especialidade.


O que 40.000 km e a Transamazônica revelam


O Bressan não fala da 450 por especificações de catálogo. Fala por experiência acumulada em situações que a maioria dos reviews jamais vai alcançar: tombos, caída dentro de rio gelado no Rio Grande do Sul, 2.400 km na poeira da Amazônia com entrada de sujeira na injeção.


O resultado? "40.000 km sem falhas graves. O motor continua firme."


Para referência: na primeira Himalayan 411 que o Bressan rodou na mesma quilometragem, já havia quebrado motor, amortecedor traseiro e carcaça do farol.


Os defeitos reais — sem eufemismo


Ele não poupa a 450 onde ela merece crítica. Os problemas que considera reais e documentados:


Falhas de montagem do ciclo inicial: tampa do radiador frouxa, arranhões no aro tubeless, cabos mal posicionados de fábrica. Identificados e corrigidos rapidamente pela Royal Enfield.


Amortecedores com defeito em alguns lotes: atendidos em garantia, mas com tempo de espera longo.


Erro de APS (acelerador eletrônico): o problema mais preocupante no momento. Mensagem de erro que aparece sem causa clara, com solução inconsistente — troca do acelerador resolve em alguns casos, não resolve em outros. A Royal Enfield ainda não tem diagnóstico definitivo.


Bomba de gasolina sensível a combustível adulterado: o próprio Bressan teve esse problema. Solução: bomba compatível instalada por conta própria. Ressalva importante: gasolina adulterada não é problema da moto — é problema do país.


O que ele considera detalhe, não defeito: coxim do guidom que desgasta rápido, espelho que afrouxa, marcador de combustível impreciso. São pontos de melhoria, não razões para deixar de comprar.


O pós-venda: a pergunta que todo comprador deveria fazer antes


Bressan é direto: o pós-venda da Royal Enfield no Brasil é um quebra-cabeça. Varia por concessionária, por modelo e por peça. Há 45 concessionárias espalhadas pelo país — e os estoques delas não se comunicam.


A dica prática dele vale mais do que qualquer promessa de catálogo: consulte várias concessionárias antes de concluir que a peça não existe no Brasil. O que não tem na sua cidade pode estar disponível em outra loja a 500 km.


Para peças pintadas, a realidade é mais dura: a pintura é feita na Índia. Em caso de acidente com dano na lataria, a espera pode passar de 90 dias. Isso muda com a implantação da fábrica no Brasil — mas ainda não mudou.


Três pontos de atenção para quem vai comprar


Ele encerra com três alertas que valem para qualquer comprador de Himalayan 450:


1. Respeite os prazos de revisão. Não existe "tolerância de 10%". Quem perde prazo, perde garantia. Agenda no celular, post-it, o que for — sem desculpa.


2. Nada de gambiarra na manutenção. Filtro de moto errada não serve porque "dá para adaptar". Já gerou gasto de R$ 10.000 a compradores que não seguiram essa regra.


3. Cuidado com preços de peças em vídeos de terceiros. Bressan menciona casos de valores errados divulgados deliberadamente. Confirme direto na concessionária ou em grupos de donos antes de tomar qualquer decisão baseada em preço.


Vale a pena comprar a Himalayan 450?


Essa pergunta tem uma resposta honesta que depende do seu perfil.


Se você quer uma moto versátil, com motor confiável após 40.000 km documentados em condições extremas, e aceita conviver com um pós-venda que exige paciência e pesquisa, a resposta provavelmente é sim.


Se você mora longe de centros urbanos com concessionárias Royal Enfield, não tem tolerância para esperar peças e não quer se envolver na gestão da manutenção — considere isso antes de assinar o pedido.


A Himalayan 450 é uma moto boa. Não é uma moto perfeita. E quem te disser o contrário provavelmente está vendendo algo.


José Caetano é jornalista e fundador do Portal Gasolina, a única revista digital brasileira dedicada exclusivamente ao universo das motos clássicas, modern classics, cruisers e customs.


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