Pneu de moto com câmara ou sem? Entenda as diferenças ao rodar
- José Caetano

- há 1 dia
- 6 min de leitura
Se pneu sem câmara é mais seguro, prático de reparar e já equipa até scooters de entrada, por que tantas motos novas — inclusive clássicas de respeito — ainda saem de fábrica com rodas raiadas e pneus com câmara? À primeira vista parece pura teimosia ou apego cego ao visual retrô, mas basta olhar para o catálogo 2026 da Triumph para perceber que a história é mais complexa: enquanto a família Bonneville continua com rodas raiadas tradicionais e pneus com câmara em boa parte das versões, as Scrambler 1200 e scramblers mais modernas já adotam rodas raiadas preparadas para pneus tubeless, unindo estética clássica com tecnologia atual.
Não é só uma questão de nostalgia: o tipo de roda, o comportamento do pneu em caso de furo, o uso pretendido (cidade, estrada ou off-road) e até o custo de produção entram na equação, o que explica por que o pneu com câmara ainda resiste firme em catálogos 2026 ao lado dos tão desejados sem câmara. É exatamente essa mistura de tradição, engenharia e uso real na vida do motociclista que o comparativo a seguir vai destrinchar, para ajudar você a entender por que as fábricas insistem nesse “pedaço de borracha” que pode decidir se o seu rolê acaba no acostamento ou continua até o próximo café.

Como funciona cada tipo de pneu
Antes de escolher lado nessa briga, vale entender o que muda na prática entre pneu com câmara e pneu sem câmara. Em ambos, quem faz contato com o asfalto é a borracha do pneu; a diferença está em como o ar é retido lá dentro.
No pneu com câmara, existe um “balão” de borracha independente dentro do pneu, responsável por segurar o ar; se algo corta ou fura, quem rasga é essa câmara, e o ar escapa por ela.
No pneu sem câmara (tubeless), o próprio pneu tem uma camada interna de vedação (liner) e talões que se encaixam com precisão no aro; o ar fica confinado entre pneu e roda, sem peça intermediária.
Em termos de catálogo, isso explica por que tantas motos com roda de liga saem de fábrica com tubeless, enquanto uma parte das clássicas de roda raiada ainda depende da boa e velha câmara de ar. Justamente porque o ar poderia vazar no encaixe dos raios com a roda.

Vantagens e limitações do pneu com câmara
O pneu com câmara é o “velho conhecido” de quem anda de Bonneville, trail pequena ou outra clássica com roda raiada tradicional. Ele continua existindo por alguns motivos bem práticos.
Custo e Robustez básica
O conjunto pneu + câmara costuma ser mais barato de produzir e de comprar, interessante para motos de entrada e mercados sensíveis a preço.
Em regiões onde a malha viária é ruim, ainda é mais fácil encontrar câmara de reposição em qualquer borracheiro de bairro do que um pneu tubeless específico.
Compatibilidade com rodas raiadas “comuns”
Na maioria das rodas raiadas tradicionais, os raios atravessam o aro, criando pontos por onde o ar escaparia se não houvesse câmara; por isso, o conjunto com câmara é praticamente obrigatório.
Em motos clássicas modernas que usam rodas raiadas convencionais, como muitas Bonneville de rua, o grande “pecado” não é o comportamento em si, mas o drama se furar longe de um borracheiro ou se o piloto não souber tirar a roda.
Pontos fracos importantes
Em caso de furo, o pneu com câmara tende a esvaziar de uma vez: se a câmara rasga, o ar some rápido, o que aumenta muito o risco de perder o controle, especialmente no pneu dianteiro e em alta velocidade.
O reparo é demorado: exige tirar a roda da moto, desmontar o pneu, localizar o furo na câmara, remendar ou trocar e remontar tudo — tarefa bem pouco divertida no acostamento

Vantagens e limitações do pneu sem câmara
O pneu sem câmara virou padrão em scooters, motos urbanas modernas, estradeiras e, cada vez mais, em scramblers e bigtrails com roda raiada preparada pra isso.
Segurança em caso de furo
A grande vantagem é a forma como ele perde pressão: na maioria dos casos, o ar escapa devagar, apenas pelo furo, dando tempo de reduzir a velocidade e encostar com controle muito maior da moto.
O risco de “estouro” repentino é bem menor que em conjuntos com câmara, o que explica por que o tubeless é considerado, em geral, mais seguro no asfalto.
Praticidade de reparo e uso diário
Pequenos furos podem ser resolvidos com um simples kit de plug (macarrão), sem tirar a roda: tampar o buraco, encher o pneu e seguir até um posto ou borracheiro.
Sem o atrito entre pneu e câmara, o conjunto trabalha mais frio em viagens longas, o que ajuda na vida útil do pneu e na estabilidade em velocidade de cruzeiro.
Limitações e “poréns”
Nem toda roda aceita tubeless com segurança: é preciso que o aro seja projetado para isso, seja em liga leve ou em rodas raiadas especiais, como as usadas em scramblers e maxitrails modernas.
Furos grandes, próximos à lateral, ou danos no aro costumam exigir troca de pneu (e às vezes de roda), o que pesa mais no bolso do que simplesmente trocar uma câmara.

Por que 2026 ainda tem tanta moto com câmara?
Se tecnicamente o pneu sem câmara é mais seguro e prático para a maioria dos usos, por que as fichas técnicas 2026 continuam cheias de motos com roda raiada e câmara? A resposta mistura engenharia, custo e estilo.
Estética clássica e posicionamento de produto
Nas linhas clássicas modernas, como a família Bonneville, a roda raiada faz parte da assinatura visual; abandonar esse conjunto em nome da praticidade pode desagradar justamente o fã mais apaixonado pelo estilo.
Algumas marcas preferem manter o pacote “raio + câmara” nas versões mais puristas e reservar a roda raiada tubeless (mais cara e complexa) para scramblers e versões aventureiras, como já se vê em motos de uso misto na linha Triumph e em modelos de marcas concorrentes.
Custo industrial e preço final
Rodas raiadas tubeless exigem construção diferente: raios ancorados de modo a não atravessar o canal do aro, usinagem mais precisa e, muitas vezes, fornecedores específicos; tudo isso encarece o conjunto.
Em um mercado, em que alguns milhares de dólares a mais podem matar uma venda, manter roda raiada convencional com câmara em certas versões é uma forma de segurar o preço de entrada.
Uso real e tradição em off-road
Mesmo com a evolução dos tubeless, muita gente que faz trilha pesada ainda prefere pneu com câmara em rodas raiadas tradicionais, pela facilidade de adaptar calibragens extremas e pela resistência a pancadas fortes em pedras e valetas.
Para off-road leve e viagens mistas, as marcas vêm migrando para rodas raiadas tubeless em scramblers e bigtrails, como no caso da Scrambler 1200 com pneus sem câmara pensados justamente para encarar pisos irregulares sem sacrificar conforto no asfalto.

Então, qual escolher para o seu rolê?
Na prática, a resposta passa menos por “teoria” e mais pelo tipo de moto que está na garagem e pelo uso que você faz dela.
Se a moto tem roda de liga e já vem com pneu sem câmara, não há muito o que discutir: é aproveitar a segurança extra, manter a calibragem em dia e carregar um bom kit de reparo e um mini compressor na mochila ou alforje.
Se é uma clássica moderna ou custom de roda raiada com câmara, a pergunta vira outra: faz sentido investir em roda raiada tubeless aftermarket ou conviver com a câmara sabendo do risco de esvaziamento rápido e do trabalho maior em caso de furo?
Para quem só passeia em ritmo tranquilo, dentro do limite de velocidade, e roda mais perto de cidade do que em grandes travessias, dá para conviver com o pneu com câmara desde que se aceite o “fim de rolê” em caso de furo mais sério.
Já quem quer rodar muito, viajar carregado, pegar serra e rodovia longa com moto clássica, tende a se beneficiar demais de migrar (quando possível) para um conjunto tubeless — seja com rodas de liga, seja com rodas raiadas preparadas para isso.
No fim das contas, o fato de ainda existirem motos 2026 com pneu com câmara não é exatamente atraso tecnológico, mas uma soma de estilo, engenharia e planilha de custos. Cabe a cada motociclista decidir se aceita o pacote clássico completo — com seus encantos e inconvenientes — ou se prefere investir na tranquilidade prática dos pneus sem câmara, mesmo que isso signifique mexer em uma das peças mais icônicas do visual da sua moto.





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