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Interlagos e suas particularidades

Um dia nos boxes do autódromo mais importante do Brasil


Texto: José Caetano e Luiz Gustavo Cabett


Estar no mais famosos autódromo do Brasil em dia de treino é uma experiência sensorial verdadeiramente marcante. O ronco dos motores de corrida pode ser ouvido desde fora da área, conduzindo os interessados para os portões de entrada. O ambiente criado entre os inúmeros integrantes das equipes de corrida é algo único, que devia ser matéria de estudo sobre o comportamento humano. A cordialidade, o companheirismo, a parceria, mesmo entre adversários na pista, é algo realmente marcante nessas provas.


A chegada

Quando já estávamos na avenida, nos aproximando do autódromo, na busca da entrada certa para os bastidores da cena, ao invés do GPS (que nem sempre encontra o portão), fomos guiados por nada menos que o próprio Safety Car de Interlagos, que naquela hora da manhã também chegava para compor os personagens da corrida.

Safety Car conduzindo a viatura do Portal Gasolina para Interlagos. ©José Caetano

Devidamente escoltados por esse componente conhecido das provas automobilísticas, demos de cara com a primeira barreira, a sanitária. Em tempos de pandemia (ou melhor seria, infodemia), novas práticas são necessárias para garantir a salvaguarda de todos os envolvidos. Tempos estranhos que parecem não ter fim a curto prazo, e que geram novos comportamentos, alguns necessários e outros completamente bizarros e sem nenhuma comprovação lógica. O medo faz isso com as pessoas.


Teste feito. Pulseira garantindo aos outros que nossa grande equipe de dois elementos estava devidamente limpa dessa nova espécie de vírus que tem sido o motivo da perda de muitas liberdades, nos dirigimos para o que seria a sacristia do templo máximo do automobilismo brasileiro, como é conhecido o Autódromo José Carlos Pace, apelidado de Interlagos, por sua localização junto ao bairro que ganhou a alcunha em virtude de estar "entre os lagos" das represas Billings e Guarapiranga.


Nos Boxes

Estar nos boxes de uma equipe de corrida não é uma atividade para quem está desatento. Aquilo ali não é só uma garagem que guarda as máquinas geradoras de adrenalina. É uma oficina mecânica, com elementos perigosos sendo manipulados rapidamente e com destreza, sem que nada se incendeie ou quebre. É um claustro onde os pilotos, monasticamente se preparam para os minutos mais rápidos e intensos, em que um acidente é uma possibilidade a cada curva. É a sala de jantar, onde se alimentam e se hidratam, ao som ensurdecedor de todos os pistões, válvulas e bielas.


Box da equipe Terraquatro, com seus mecânicos e pilotos aguardando a chegada dos treinos. ©José Caetano
Rafael Schühli fazendo aquele ajuste fino com o mecânico na hora de ir para pista. ©José Caetano
Concentração do mecânico lendo os parâmetros do veículo. ©José Caetano

Chegamos e já saudamos os anfitriões e amigos da equipe Terraquatro, de Quatro Barras, PR. Mas, logo nos é lembrado que conversar naquele ambiente é uma missão quase impossível enquanto duram os treinos e as provas das diversas categorias que compartilham a pista de Interlagos em um fim de semana. O ruído grave e altíssimo do etanol combustível nos motores deve ter decibéis maiores que um bom concerto de rock dos anos 70. Em resumo, não dá pra conversar com os motores ligados.


Encontrado um cantinho para despejar nossa tralha de filmagem e fotografia sem que incomodasse o normal andamento dos boxes, partimos para as filmagens.


Na Pista

Dessa vez, ficamos no Box de n. 3, bem em frente ao grid de largada, logo onde começam os boxes, diante do ponto de maior velocidade da pista, a linha de chegada. E, tão logo encaramos o asfalto já vimos o grid da Fórmula 1600 alinhado para a largada.

Concentração e espera da luz vermelha se apagar. ©José Caetano

Receberam a luz verde, saímos em direção à outra ponta dos boxes, onde está o famoso "S do Senna", um conjunto de curvas em declive com formato semelhante à letra S do alfabeto e que é o primeiro ponto de desafio para os pilotos em Interlagos.

O S do Senna não perdoa nenhum deslize. ©José Caetano

Nessa hora, para escolhermos um ponto de captação de imagens que fosse valer a pena, avistamos de longe uma cabeça branca que denotava experiência, entrincheirado bem na saída do "S". Decidimos partir para aproximação e tivemos uma daquelas surpresas que só Interlagos nos proporciona. Cláudio Larangeira (com 'g' mesmo) executava sua maestra. O fotógrafo, especializado em automóveis, criador de imagens famosas, estava lá, com sua teleobjetiva, no seu "estúdio" ao ar livre.

Cláudio Larangeira sendo tietado pela equipe do Portal Gasolina.

O revés do dia

Mas, nem tudo são facilidades em Interlagos e naquele dia, ainda antes da chegada ao autódromo, fomos surpreendidos com a notícia de que o veículo do piloto que nos convidara para a cobertura da corrida teria sofrido avarias durante o transporte de Belo Horizonte para São Paulo.


A carretinha que trazia o Puma do piloto Guilherme Melo, patrocinado pela Nano Condicionadores de Metais, que também corre pela equipe Terra Quatro, soltou-se do reboque e lançou-se contra o guardrail da estrada. Pelas fotos do acidente, nós, que somos leigos, pensamos que não veríamos aquele carro nas pistas, mas, é aí que acontece a mágica de Interlagos.


A união e companheirismo dentro das corridas é algo sem igual, contaminante. Várias mãos desceram o veículo do guincho, peças surgiram de todos os boxes vizinhos, mecânicos se embrenharam no carro e o Puma do Guilherme foi para a corrida no dia seguinte, sem treino mesmo, para garantir pontos para o atual campeão e primeiro colocado em sua categoria na Gold Classic.


Mecânico da equipe Terraquatro iniciando os reparos no carro de Guilherme Melo. ©José Caetano
Nessa hora até repórter mete a mão na massa. ©José Caetano

Interlagos tem disso, dessas mágicas. Ali, nos boxes, todos são iguais e há uma irmandade que até pode ser explicada por algum psicólogo, mas que o importante é que isso pode ser vivido por quem está naquele lugar. Grandes nomes do automobilismo nacional, entre pilotos e preparadores, são tão acessíveis ali quanto os pilotos jovens, em começo de carreira. Talvez, o perigo da pista faça isso com as pessoas ou talvez seja o espírito de competição mesmo, afinal, tudo aquilo não é nada mais do que um saudável esporte.


A Gold Classic é uma modalidade de corrida que reúne carros nacionais até 1993, com 4 Categorias e duas subdivisões em cada categoria. Nesse final de semana que estivemos em Interlagos, dividiram a pista também a Fórmula 1600, a Fórmula Delta, a Race Cup, a Copa Joy e a Old Stock.
















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