Benda chega no Festival Interlagos e abre frente no mercado brasileiro de motos custom
- José Caetano

- há 21 horas
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O Festival Interlagos Motos 2026 terminou no último domingo, 16 de agosto, deixando uma impressão clara para quem acompanhou de perto a edição deste ano: o mercado brasileiro de motocicletas está menos concentrado nas fórmulas tradicionais. Entre 12 e 16 de agosto, o Autódromo José Carlos Pace recebeu fabricantes, importadores, lançamentos, pré-lançamentos, test-rides e uma quantidade crescente de marcas chinesas e indianas.

Para o Portal Gasolina, que esteve no evento durante a cobertura destinada à imprensa (dias 12 e 13), a principal notícia entre as motos clássicas, cruisers e customs não veio de uma fabricante já estabelecida no país. Veio da China, pelas mãos da Dafra: a Benda confirmou sua entrada no Brasil e apresentou sete motocicletas, ainda em processo de avaliação e homologação.
É preciso fazer uma distinção importante. A chegada da marca ao país foi confirmada, mas isso não significa que os sete modelos estarão automaticamente nas concessionárias. A Dafra ainda precisa definir o portfólio, os preços, o cronograma e a estrutura comercial da operação. Segundo as informações divulgadas durante o festival, a empresa já iniciou a seleção de concessionários para representar a nova marca.
A Benda no Brasil e a ruptura com o previsível
A Benda não chegou ao Festival Interlagos para ocupar um espaço discreto. Seu estande funcionou como uma declaração de intenções: a marca pretende disputar o imaginário de quem procura uma cruiser/custom diferente, com soluções técnicas pouco usuais e um desenho que não tenta reproduzir integralmente as escolas americana ou britânica, ainda que traga muitas semelhanças.
A Dafra levou ao evento os seguintes modelos da Benda:
Modelo | O que chamou atenção | Situação no Brasil |
Chinchilla 350 V2 Automatic | Motor V2 e transmissão automática CVT | Em avaliação e homologação |
Chinchilla 500 V2 | Custom de maior cilindrada, com transmissão final por correia | Em avaliação |
Dark Flag Commander V4 | Motor de quatro cilindros em V | Em avaliação |
LFC 700 Pro | Motor de quatro cilindros em linha e pneu traseiro de 310 mm | Em avaliação |
Napoleonbob 500 V2 | Bobber de maior porte, com visual radical | Em avaliação |
Napoleonbob 250 V2 | Proposta de entrada no universo custom | Em avaliação |
Rock 300 V2 | Custom compacta de desenho clássico | Em avaliação |
A Chinchilla 350 automática e a Dark Flag Commander V4 foram tratadas como os principais cartões de visita da marca, enquanto a LFC 700 Pro assumiu o papel de modelo mais extravagante da exposição.
As motos que mais impressionaram
Chinchilla 350 V2 Automatic
Foi a motocicleta que mais diretamente alterou a conversa sobre o que se espera de uma cruiser de média cilindrada. O motor V2 de 343 cm³ é associado a uma transmissão CVT, solução mais comum em scooters do que em motos de inspiração cruiser. A proposta é simples de compreender: manter a estética, a postura e a experiência visual de uma cruiser, retirando da equação a operação do câmbio manual.
Para nós, o acabamento geral pareceu bem resolvido, com comandos, painel e retrovisores coerentes com a proposta. A moto, porém, ainda estava parada, e isso limita qualquer conclusão sobre funcionamento, respostas do conjunto ou conforto real em deslocamentos urbanos e rodoviários.

Chinchilla 500 V2
A versão de 500 cm³ conserva a linguagem da Chinchilla, mas acrescenta uma presença mais robusta. O motor V2 e a transmissão final por correia a colocam em uma zona de interesse para quem procura uma cruiser intermediária com maior capacidade para estrada.
Foi possível notar uma posição de pilotagem ligeiramente diferente da 350, com o tanque mais elevado e um encaixe das pernas que parece favorecer o controle da motocicleta. Ainda assim, a definição de preço será decisiva. Sem um posicionamento competitivo, a Chinchilla 500 poderá enfrentar modelos já conhecidos e com rede estabelecida no Brasil.
Dark Flag Commander V4
A Dark Flag Commander V4 é, tecnicamente, a peça mais curiosa da apresentação. Um motor de quatro cilindros em V em uma cruiser de aproximadamente 500 cm³ não é uma escolha convencional. A ficha divulgada em fontes especializadas aponta 496,4 cm³ e potência declarada próxima de 47 cv, números que ajudam a explicar por que a configuração chama mais atenção pela arquitetura do que pela força bruta.
No contato realizado em Interlagos, a posição de pilotagem mostrou-se confortável, com apoio lombar e ergonomia de cruiser. A motocicleta tem porte suficiente para transmitir a sensação de uma estradeira, embora seja necessário aguardar uma unidade em condições de teste para avaliar peso, vibrações, entrega de potência e comportamento em velocidade de cruzeiro.
Napoleonbob 250 V2
A Napoleonbob 250 V2 aposta em uma interpretação mais agressiva da bobber. O tanque estreito, o assento elevado e o guidão baixo criam uma posição de pilotagem mais fechada, quase em “C”, enquanto a suspensão dianteira exposta reforça a personalidade do conjunto.
É uma moto de desenho marcante. A questão será saber se a estética radical virá acompanhada de conforto suficiente para o uso cotidiano. Na unidade exposta, a impressão foi de um conjunto firme, mas somente um teste em asfalto poderá separar característica de projeto de eventual limitação de acerto.

LFC 700 Pro
A LFC 700 Pro foi a motocicleta que provavelmente mais atraiu o público pelo impacto visual. Ela combina um motor de quatro cilindros em linha com um pneu traseiro de 310 mm, solução que a coloca em uma categoria própria dentro da seleção apresentada pela Benda.
É uma moto concebida para ser vista. Mas, em um mercado como o brasileiro, o espetáculo inicial precisa ser acompanhado de uma operação consistente. O preço, o peso, a facilidade de manutenção, a rede de assistência e a disponibilidade de componentes serão tão importantes quanto o desenho e a potência.

Rock 300 V2
A Rock 300 V2 é a opção mais compacta e tradicional do grupo. Seu motor V2, suas dimensões menores e a posição de pilotagem confortável podem fazê-la funcionar como porta de entrada para a marca, caso o preço seja adequado.
Entre as sete motos, ela talvez seja a que tenha maior possibilidade de dialogar com quem deseja uma cruiser de uso urbano sem partir diretamente para uma motocicleta grande, pesada e cara. A Chinchilla 350 automática, entretanto, poderá disputar o mesmo público por oferecer uma proposta ainda mais singular.
O contraste com as marcas já estabelecidas
A força da Benda no festival não deve ser analisada isoladamente. Ela apareceu em um ambiente no qual Royal Enfield, Triumph, Harley-Davidson, Kawasaki e Moto Morini exibiram produtos que já possuem identidade consolidada entre os motociclistas brasileiros.
A Royal Enfield apresentou oficialmente a Goan Classic 350, a Himalayan 450 Mana Black e a Guerrilla 450 Apex. A Goan Classic 350 chega com proposta bobber, pneus de faixa branca e a conhecida plataforma de 350cc. A motocicleta chamou atenção pelo uso de elementos clássicos, como rodas raiadas e acabamento predominantemente metálico, mas também por soluções contemporâneas, como a raiação externa sem câmara de ar.
A Himalayan 750, exibida como conceito aventureiro, foi outro ponto de interesse. A motocicleta ainda não representa um lançamento comercial confirmado, mas indica que a Royal Enfield estuda ampliar sua presença entre os modelos de maior cilindrada. A marca também confirmou a intenção de construir uma fábrica própria no Brasil.
A Triumph, por sua vez, ampliou a família de 400cc no Brasil com a Thruxton 400 e a Tracker 400. A primeira recupera o nome ligado à tradição café racer; a segunda aproxima-se do universo flat track. Os preços anunciados partem de R$ 30.990, o que coloca os novos modelos em uma faixa estratégica para conquistar motociclistas que desejam entrar no universo das clássicas modernas.
A experiência de pilotar uma Scrambler 400XC no autódromo reforçou uma percepção importante: uma motocicleta de média cilindrada não precisa ser tratada como uma versão menor e sem graça de uma moto grande. Com peso, potência e ciclística coerentes, ela pode ser plenamente divertida — inclusive em Interlagos.
A Kawasaki manteve a receita retrô com a Z650RS e a Z900RS, esta última herdeira visual da Z1. A presença de mostradores analógicos, mesmo convivendo com telas digitais e eletrônica moderna, mostra que a linguagem clássica continua sendo uma ferramenta comercial poderosa. A Z900RS apresentada no evento utiliza motor de 948 cm³, com 116 cv, e foi anunciada com preços entre R$ 73.490 e R$ 81.490, conforme a versão.
Na Harley-Davidson, a Heritage 2026 atualizou o conjunto sem abandonar sua identidade. O motor Milwaukee-Eight de 1.923cc, as malas rígidas e os pneus sem câmara reforçam o caráter estradeiro, enquanto alguns detalhes — como o banco do garupa mais estreito e a simplificação de certos equipamentos — mostram que mesmo uma motocicleta tradicional está sujeita a mudanças de projeto e posicionamento.
O que Interlagos realmente revelou
O Festival Interlagos 2026 foi apresentado como uma grande vitrine do setor, com dezenas de lançamentos e pré-lançamentos. A leitura mais importante, entretanto, não está apenas na quantidade de motos expostas, mas na disputa que se desenha em torno da média cilindrada e do estilo de vida associado às motocicletas clássicas, cruisers, customs e aventureiras.
A Benda percebeu uma oportunidade: há motociclistas interessados em design, personalidade e experiências diferentes, mas nem todos querem (ou podem) comprar uma Harley-Davidson de grande cilindrada ou uma cruiser tradicional. A Royal Enfield ocupou parte desse espaço com motos simples, acessíveis e visualmente coerentes. A Triumph avançou com uma linha de 400cc tecnicamente mais sofisticada. A Benda tenta chegar por outro caminho, oferecendo soluções incomuns e uma aparência que não passa despercebida.
O risco está igualmente claro. A motocicleta pode encantar no primeiro contato e ainda assim fracassar se o consumidor não encontrar peças, assistência, valor de revenda e confiança no produto. A experiência brasileira com novas marcas de origem chinesa mostra que o desenho é apenas a porta de entrada; a permanência depende da operação.
Por isso, a chegada da Benda deve ser acompanhada com entusiasmo, mas também com prudência. O Festival Interlagos serviu como apresentação e, ao mesmo tempo, como teste de temperatura do mercado. A pergunta agora não é se a marca chamou atenção. Chamou. A pergunta decisiva é quais modelos chegarão de fato, por quanto e com que estrutura para permanecer.



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