Você realmente sabe fazer uma curva de moto?
Toda curva parece simples até o momento em que ela fecha mais do que você esperava. A estrada aparece limpa, a moto está estável, a velocidade parece adequada. Então a curva se revela mais fechada, surge um carro na contramão, o asfalto apresenta uma irregularidade e sobra pouco espaço para decidir. É nesse intervalo curto entre a percepção e a reação que acontecem boa parte dos acidentes de motocicleta em vias sinuosas.
Na região de Derbyshire, na Inglaterra, o asfalto começou a oferecer uma ajuda incomum. O condado instalou as primeiras marcações PRIME do país, um sistema de sinalização pensado para motociclistas em curvas consideradas críticas.
A proposta não é transformar a estrada em uma pista de treino. É usar a própria sinalização para provocar uma decisão antes da curva, no momento em que ainda existe tempo e espaço para corrigir o erro.

O que são as marcações PRIME
PRIME é a sigla de Perceptual Rider Information for Maximising Expertise and Enjoyment. Em tradução livre, algo como “informação perceptual para maximizar a expertise e o prazer do piloto”. O nome é longo, mas a ideia é bastante direta.
O sistema combina placas específicas e uma sequência de marcações no asfalto chamadas de gateways, ou “portais”. Elas são posicionadas na aproximação de curvas exigentes e orientam o motociclista a passar pelos vãos entre elas, e não sobre as faixas pintadas.
A referência visual tem uma função clara: ajudar o piloto a escolher uma velocidade adequada e uma posição segura na pista antes de entrar na curva. O objetivo declarado pelo conselho de Derbyshire é justamente reduzir a necessidade de frenagem enquanto a moto já está inclinada.
Não se trata de uma linha que indica a trajetória perfeita. O sistema não diz ao piloto exatamente onde passar, nem dispensa a leitura da curva. Ele funciona como um lembrete físico: antes de inclinar a moto, é preciso decidir como entrar na curva.

Como acertar as curvas de moto
O erro mais comum em curvas de estrada raramente acontece no meio dela. Ele começa antes.
O piloto entra rápido demais, mantém uma trajetória muito próxima da linha central ou subestima o quanto a curva vai fechar. Quando percebe o problema, já está inclinado, com pouco espaço para frear e menos margem para corrigir a direção. Em uma curva à direita, esse erro pode aproximar a moto do tráfego contrário; em uma curva à esquerda, pode levar a uma saída de pista.
As marcações PRIME tentam interferir justamente nesse comportamento. Elas criam uma referência visível antes da curva e convidam o motociclista a reduzir a velocidade, escolher uma posição mais segura na faixa e observar melhor o que vem adiante.
Onde o sistema foi instalado
As primeiras marcações na Inglaterra foram instaladas em dois trechos de Derbyshire: na B6015 Woodhead Road, no ponto conhecido como Devil’s Elbow, próximo a Glossop, e na A6, entre Buxton e Bakewell.
A escolha não foi aleatória. Segundo o conselho local, os pontos foram selecionados a partir da análise de dados de acidentes com motocicletas entre 2015 e 2024. A prioridade foi para aglomerados de colisões em estradas rurais, especialmente onde curvas ou perda de controle apareceram como fatores contribuintes.
Derbyshire foi a primeira autoridade rodoviária inglesa a receber autorização especial do Departamento de Transportes britânico para usar o sistema. O programa é conduzido em parceria entre o conselho do condado, a polícia de Derbyshire e a National Highways.
Outras vias já fazem parte do plano de expansão, incluindo a A57 Snake Pass, a A54 Macclesfield Main Road, a A53 Axe Edge, a A623 Peak Forest e a B5035, perto de Middleton-by-Wirksworth.
De onde veio a ideia
O PRIME não nasceu em Derbyshire. O sistema foi desenvolvido e aplicado pela primeira vez em rodovias na Escócia, dentro de um programa de pesquisa sobre segurança motociclística financiado pela Road Safety Trust. Depois, foi instalado em quatro pontos no norte e no centro do País de Gales.
O conselho de Derbyshire também destaca o trabalho do falecido professor Alex Stedmon, que teve papel central no desenvolvimento do sistema e na demonstração de como ele poderia influenciar positivamente o comportamento dos pilotos.
A expansão para a Inglaterra, portanto, não é um experimento improvisado. É a continuação de uma pesquisa que já passou por outros territórios britânicos — embora os resultados locais ainda precisem ser observados com cuidado.
Funciona mesmo?
Os resultados anteriores são promissores, mas exigem leitura responsável.
Em testes realizados nas Highlands escocesas, pesquisadores observaram mais de 32 mil motociclistas em 22 pontos. O estudo apontou redução de velocidade nas curvas críticas, melhor posicionamento na aproximação e menos frenagem dentro da curva.
Um relatório sobre os testes realizados entre 2023 e 2025 também registrou melhorias em velocidade, trajetória e comportamento de frenagem nos trechos analisados.
A Road Safety Trust afirma que o estudo conduzido pela Transport Scotland demonstrou que as marcações funcionam, com mudança duradoura de comportamento e impacto na segurança. Ainda assim, Derbyshire não está tratando o resultado escocês como garantia automática: a polícia local pretende usar câmeras já existentes para observar velocidade e posição dos motociclistas antes e depois da instalação das marcações.
Isso não significa que uma pintura no asfalto elimina o risco. Ela não mostra óleo na pista, não avisa sobre um carro invadindo a contramão e não compensa excesso de velocidade, pneus gastos ou falta de experiência. O que as marcações podem fazer é ajudar o piloto a antecipar a curva — e, nesse ponto, ganhar margem para o erro.
Uma ideia que já circulava
Quem acompanha o Portal Gasolina talvez lembre de outra experiência semelhante. Na Áustria e, mais recentemente, na Espanha, autoridades testaram círculos brancos pintados próximos à linha central de curvas perigosas. A orientação era evitar passar sobre as marcas e utilizá-las como referência para manter a moto mais afastada do eixo da estrada.
Apesar da aparência diferente, os dois sistemas partem do mesmo princípio: usar a infraestrutura da via para influenciar o comportamento do motociclista sem criar faixas exclusivas nem mudar as regras de circulação.
A diferença é que o PRIME organiza a informação em uma sequência de portais antes da curva. Em vez de apenas afastar a moto da linha central, ele tenta provocar uma cadeia de decisões: olhar, desacelerar, posicionar e só então inclinar.
O que dá para aprender com isso
Não é preciso esperar que uma concessionária da rodovia ou prefeitura instale marcações semelhantes para aplicar a lógica do sistema.
Em qualquer estrada, o motociclista pode criar suas próprias referências antes da curva: uma placa, um poste, uma árvore, uma mudança no asfalto ou o ponto em que a visibilidade começa a diminuir. O importante é usar esse ponto para tomar as decisões necessárias antes de entrar na inclinação.
Na prática, a rotina continua sendo a mesma:
Ler a curva com antecedência, observando o desenho da via e a visibilidade.
Reduzir a velocidade antes do ponto de inclinação.
Escolher a posição na faixa conforme o tráfego, a visibilidade e as condições do piso.
Entrar com margem, e não no limite.
Observar a saída antes de retomar a aceleração.
A marcação britânica apenas transforma esse raciocínio em algo visível no asfalto. A estrada pode indicar o caminho, mas a decisão continua sendo do piloto.
E talvez seja essa a pergunta que vale levar para o próximo passeio: quando você se aproxima de uma curva, está apenas reagindo ao que aparece — ou já decidiu, antes de inclinar a moto, como vai atravessá-la?
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