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A marcação no asfalto que pode reduzir acidentes de moto nas curvas

25 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 9 de set.

Uma sequência de círculos brancos pintados no asfalto pode parecer, à primeira vista, apenas uma nova forma de sinalização. Para quem viaja de moto pelas estradas espanholas, porém, essas marcas têm uma função bastante específica: ajudar a escolher uma trajetória mais segura nas curvas.


A solução foi desenvolvida e testada inicialmente na Áustria. Agora, começa a ser avaliada em estradas da Espanha, especialmente em trechos sinuosos e com histórico de acidentes envolvendo motocicletas.


A lógica é simples, mas exige uma interpretação correta. Os círculos não indicam por onde o motociclista deve passar. Ao contrário: a recomendação é evitar pisar sobre as marcas e utilizá-las como uma referência visual para manter a moto afastada da linha central da estrada.


marcação no asfalto no Tirol, para reduzir acidentes

O problema está na trajetória


Em uma curva, principalmente nas curvas cegas para a esquerda, muitos motociclistas aproximam-se excessivamente do eixo central da pista. À medida que a moto se inclina, o conjunto formado pela motocicleta e pelo corpo do piloto pode ocupar uma área ainda mais próxima do tráfego que vem no sentido oposto.


Esse erro reduz a margem de segurança e pode provocar uma colisão frontal. Mesmo quando não ocorre uma batida, o encontro com um veículo em sentido contrário pode levar o motociclista a corrigir bruscamente a trajetória, perder estabilidade ou sair da pista.


As marcas brancas procuram interferir nesse comportamento no momento exato em que o risco aparece. Posicionadas junto à linha central, elas criam uma referência visual que convida o motociclista a fazer uma trajetória ligeiramente mais aberta, permanecendo no lado mais seguro da própria faixa.


A medida, portanto, não substitui a técnica de pilotagem. Ela funciona como um lembrete visual para reduzir a velocidade, observar melhor a curva e evitar a aproximação excessiva do centro da estrada.


Infelizmente, eu já cheguei a presenciar o resultado de um acidente fatal em que um piloto chocou o capacete em um ônibus numa curva da serra que liga Cruzeiro (SP) a Passa Quatro (MG). Era exatamente uma curva para a esquerda, obrigando o piloto a deitar a moto e o ônibus, por sua vez, inclinou-se para fora por força das forças físicas envolvidas. Foram centímetros que selaram o destino daquele irmão de estrada.


A experiência austríaca


A Áustria começou a testar esse tipo de orientação visual no Tirol, região conhecida pelas estradas montanhosas e por suas curvas de raio reduzido. O trabalho foi conduzido pelo KFV, órgão austríaco dedicado à segurança rodoviária, em cooperação com autoridades locais.


Em 2019, foram instaladas elipses brancas em 19 curvas consideradas críticas. A pesquisa partia de um princípio elementar da condução de motocicletas: em uma curva, manter uma distância adequada do tráfego contrário é decisivo para conservar uma margem de escape.


Segundo os dados divulgados pelo KFV, entre julho de 2019 e o final de 2021 foram registrados apenas quatro acidentes de motocicleta com feridos nos locais avaliados. O estudo calculou uma redução de 80% nos acidentes de moto nas curvas submetidas à intervenção.


Esse número deve ser apresentado com responsabilidade. Trata-se de um resultado obtido em trechos específicos, dentro de um estudo antes-e-depois, e não de uma garantia de que a pintura produzirá a mesma redução em qualquer estrada. Ainda assim, o resultado foi suficientemente expressivo para despertar o interesse de outros países.


O material empregado também foi escolhido para não prejudicar a aderência. Na experiência austríaca, utilizou-se a película 3M Stamark 380, descrita como um material de alto coeficiente de atrito e que poderia ser utilizado imediatamente após a aplicação.


círculos no asfalto no Tirol para diminuir acidentes de motos

O que está acontecendo na Espanha


Na Espanha, os testes foram associados inicialmente ao Servei Català de Trànsit, na Catalunha. Uma primeira experiência ocorreu na estrada BV-2115, nas proximidades do pântano de Foix. Posteriormente, o sistema foi avaliado em outros trechos, incluindo a N-260, na Collada de Toses, e a B-124, entre Sant Llorenç Savall e Calders.


A informação é importante porque alguns relatos tratam a iniciativa como uma implantação geral da Direção-Geral de Trânsito espanhola, a DGT. Até o momento, porém, as marcas testadas em território espanhol estão ligadas sobretudo a experiências realizadas pelo órgão de trânsito catalão. Não se trata de uma nova regra nacional aplicada indistintamente em todas as estradas do país.


Os círculos fazem parte de uma estratégia conhecida como "guiado em la trazada", ou orientação da trajetória. A proposta é utilizar a própria infraestrutura da estrada para influenciar o posicionamento da motocicleta, sem criar uma faixa exclusiva ou alterar as regras de circulação.


Como o motociclista deve interpretar os círculos


Ao encontrar as marcas, o motociclista deve:


  • Reduzir a velocidade antes de entrar na curva.

  • Evitar passar sobre os círculos.

  • Manter a motocicleta no lado externo das marcas.

  • Conservar distância do eixo central.

  • Observar se a curva fecha, se há veículo em sentido contrário ou se o piso apresenta irregularidades.

  • Utilizar a referência apenas como auxílio, sem abandonar os princípios básicos de pilotagem defensiva.


Os círculos não funcionam como uma ordem de parada, uma faixa de circulação ou uma indicação de que a motocicleta deve tangenciar exatamente aquele ponto. Também não autorizam o piloto a acelerar ou a ignorar a leitura da curva.


A intenção é mais modesta e, justamente por isso, interessante: induzir uma escolha de trajetória que preserve maior espaço entre a motocicleta e o tráfego contrário.


Uma solução aplicável ao Brasil?


A experiência europeia também levanta uma questão relevante para o Brasil. Muitas rodovias brasileiras possuem curvas perigosas em regiões serranas, estradas turísticas e trechos de pista simples com grande circulação de motocicletas.


Antes de adotar uma solução semelhante, seria necessário estudar diferenças importantes, como:


  • Qualidade e conservação do pavimento.

  • Presença de areia, óleo, brita e outros contaminantes.

  • Comportamento dos motoristas.

  • Sinalização horizontal já existente.

  • Tipo de tinta ou material empregado.

  • Drenagem da pista.

  • Fiscalização e análise dos acidentes antes e depois da intervenção.


A pintura, isoladamente, não corrige excesso de velocidade, falta de experiência, pneus inadequados ou uma curva mal projetada. Também não elimina o risco provocado por veículos que invadem a faixa contrária.


Ela pode, entretanto, integrar um conjunto mais amplo de medidas: redução de velocidade, melhoria do pavimento, instalação de defensas compatíveis com motociclistas, correção de curvas de raio decrescente e sinalização antecipada.


O interesse dos círculos brancos está justamente em sua capacidade de atuar sobre o comportamento sem recorrer apenas a placas ou advertências genéricas. A marca aparece no asfalto, dentro do campo de visão do motociclista, no instante em que a decisão sobre a trajetória precisa ser tomada.


A lição mais importante


A discussão sobre os círculos brancos não deveria se limitar à pintura. A questão essencial é a maneira como uma estrada pode ajudar o usuário a tomar decisões melhores.


Em uma curva, o motociclista precisa de tempo, espaço e informação. Quanto mais cedo identifica o risco e quanto mais distante permanece do tráfego contrário, maior é a margem para corrigir um erro.


Na Áustria, essa orientação visual apresentou resultados relevantes em curvas específicas. Na Espanha, a solução continua em avaliação. O próximo passo será verificar se o comportamento observado no Tirol pode ser reproduzido em outras condições de tráfego, clima, pavimento e cultura de pilotagem.


Até lá, os círculos permanecem como uma ideia simples, discreta e tecnicamente interessante: uma marca no asfalto que não manda o motociclista acelerar, frear ou mudar de faixa, mas o lembra de uma regra fundamental da pilotagem segura — entrar na curva deixando espaço para o erro.


Conclusão


A implementação de marcas no asfalto é uma inovação que pode transformar a segurança nas estradas. A experiência na Áustria e os testes na Espanha mostram que pequenas mudanças podem ter um grande impacto. Como motociclistas, devemos sempre estar atentos às condições da estrada e às novas soluções que podem nos ajudar a pilotar de forma mais segura.


Afinal, a segurança deve ser sempre a prioridade. Portanto, ao avistar esses círculos brancos, lembre-se: eles estão ali para nos guiar, não para nos limitar. Vamos aproveitar essa nova abordagem e continuar a explorar as estradas com responsabilidade e paixão.


Se você deseja saber mais sobre segurança nas estradas, confira este artigo que aprofunda o tema.

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