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Johnny Allen e o recorde que criou uma moto

Nas vastas extensões brancas das Bonneville Salt Flats, no coração árido de Utah, um jovem texano chamado Johnny Allen desafiou a física, o vento e as regras internacionais em 1956. Seu recorde de velocidade — 214,40 milhas por hora (345 km/h) — não só coroou a Triumph como a moto mais rápida do planeta, mas também acendeu uma controvérsia diplomática que ecoou por anos, envolvendo federações rivais e insinuações de favoritismo. Este é o relato de um feito que moldou a lenda da Bonneville T120.


O Sal do Deserto e o Sonho Americano


As Bonneville Salt Flats, um remanescente pré-histórico de um antigo lago, formam uma crosta alcalina perfeita para velocidade pura — dura como concreto em dias secos, traiçoeira como gelo quando úmida. Em setembro de 1956, sob um sol impiedoso, Allen, um piloto de flat track de 27 anos com seis recordes mundiais em classes menores, preparava-se para o assalto final. Seu veículo: o Texas Cee-Gar, um streamliner aerodinâmico apelidado em homenagem a charutos texanos, construído por Stormy Mangham com apoio de Jack Wilson e Pete Dalio.


Tudo começou em uma discussão acalorada em uma oficina texana, quando um entusiasta da NSU alemã provocou: "Esse recorde vai durar para sempre." Mangham, irritado, jurou construir algo superior. O resultado foi um projétil branco de 4,77 metros, sem suspensão, com rodas de 19 polegadas e um motor Triumph de 650cc naturalmente aspirado — derivado da Tiger T110 Thunderbird.


Johnny Allen e O Motor que Desafiou o Vento


No cerne do Cee-Gar pulsava um bicilíndrico paralelo vertical de 649cc, OHV, refrigerado a ar: carburadores duplos Amal GP de 1⅜ polegada, válvulas de admissão ¼ polegada maiores, molas duplas S&W, virabrequim monobloco em Natralloy, câmbio de fábrica Q com lifters de corrida R (folga de 0,5mm), taxa de compressão 8,5:1 e combustível explosivo — 80% metanol, 20% nitrometano, gerando 80-100 cv. Transmissão de 4 velocidades, chassi space frame de cromo molibdênio de 19mm, freio só traseiro, peso de 145kg. Medidas: entre-eixos 2,845m, altura 686mm.


Às 16h06 do dia 6, Allen acelerou: 214,40 mph no km e 214,17 mph na milha, superando as 211 mph de Wilhelm Herz na NSU Delphin III. Observadores da AMA (American Motorcyclist Association) e prepostos da FIA (aliada à FIM) atestaram. Mas o paraquedas de 3m de diâmetro mal conteve a fera.


Cee-gar em Bonneville
Imagem: Classic Bike Magazine

A Controvérsia: Selos, Jantares e Sanções


A glória durou pouco. A FIM (Fédération Internationale de Motocyclisme), sediada na Europa, rejeitou o recorde em abril de 1957 com uma frase gélida: "O equipamento de temporização, embora preciso, não tinha o selo oficial da FIM." O problema? A AAA (American Automobile Association), tradicional parceira da FIM nos EUA, havia abandonado a competição meses antes. Sem entidade certificada, Philip Mayne da FIA aprovou o cronômetro do Caltech Institute, mas Perous e Lurani, da FIM, questionaram a ausência de um observador "oficial".


Suspeitas fervilharam: a NSU, alemã, teria bancado jantares luxuosos para delegados da FIM em Colônia. A Triumph processou a federação em 1957, mas desistiu após dois anos — advogados alertaram que a FIM ditava suas regras. A punição veio em 1960: banimento de dois anos da Triumph em eventos internacionais. Ironia: em 1962, Bill Johnson, com motor Triumph no Dudek/Colman, bateu 224 mph — homologado pela FIM apesar do banimento.


Johnny apelou sem sucesso, mas o texano humilde pouco se importou: "Era diversão, não negócios." A AMA manteve o recorde nacional.


Legado no Sal e na Estrada


O episódio elevou Bonneville a sinônimo de velocidade. Em 1959, a Triumph, portanto, lançou a T120: uma evolução da Tiger T110 com carburadores duplos e potência para 120 mph, com cerca de 46vc, o que dá o nome à máquina ("120" = velocidade; "T" = Tiger/Thunderbird 650cc). Nomeada pelas salinas e pelo recorde, tornou-se ícone de café racers, imortalizada por nomes como Steve McQueen, Bob Dylan e Bruce Springsteen.


Triumph Bonneville T120 1959

Décadas depois, disputas entre a FIM e a AMA persistem em nas corridas de velocidade, mas o Cee-Gar permanece no Hall da Fama da AMA, prova de que, nas flats, heróis nascem do sal e da controvérsia.

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