A celeuma da Gasolina E32 continua
- José Caetano

- há 2 dias
- 5 min de leitura
Desde o dia 1º de agosto, a gasolina comum e a aditivada no Brasil passaram a receber um acréscimo de 32% de etanol anidro em sua fórmula — a chamada Gasolina E32. Dessa vez, contudo, a mudança não veio acompanhada de testes claros e específicos sobre os danos que esse percentual poderia causar em veículos, especialmente motos, a gasolina.
Os grupos de motociclistas no WhatsApp e os fóruns de discussão explodiram em teses de engenharia — e, dessa vez, quase nenhum meme, o que mostra o nível real de preocupação de quem não sabe o que fazer com a moto ou o carro antigo. E olha que brasileiro faz meme com qualquer desgraça.
Como aqui na redação gostamos muito mais de moto do que de carro flex, fomos atrás de especialistas e marcas para entender o que muda de fato.

Gasolina E32: como chegamos até aqui
O acréscimo de etanol à gasolina não é novidade. Nos anos 80, quando o combustível ainda não levava uma gota de cana-de-açúcar, já era comum donos de Pampa e Opala completarem o tanque com uma mistura "meio a meio" direto na bomba.
Depois, por conta do preço do petróleo, da limitação das refinarias nacionais e da pressão do setor sucroalcooleiro, o acréscimo de etanol anidro virou regra. A mistura tornou-se obrigatória em 1993, em 22% (E22) — já bem acima do padrão europeu atual (E5 e E10). Com a Lei 9.478/97, o monopólio da Petrobras acabou e nasceu a ANP. Dali em diante os percentuais oscilaram por decreto: 24% em 1998, 20% em agosto de 2000, 22% em maio de 2001, com limites fixados entre 20% e 25% em 2003. Em 2006 voltou a 20%, subindo para 25% em 2007 (E25).
Em 2015 o percentual avançou para 27,5% (E27) e, no ano passado, veio o E30, respaldado por estudos do Instituto Mauá e pela Lei do Combustível do Futuro (14.993/24). Aquele aumento já tinha sido a gota d'água para donos de veículos a gasolina. Depois disso, o que seriam mais 2%?
A verdade é que há um momento em que a gota que ameaçava transbordar realmente passa do limite — e parece que, dessa vez, a ANP cruzou o Rubicão e algum Júlio César haverá bradado Alea Jacta Est.
"Não priemos cânico!"
Foi nesse momento que gritamos "quem poderá nos defender!?". Os heróis de anteninha de vinil apareceram e disseram para não criarmos pânico. Porém, o pânico já estava criado e, em muitos casos, com razão.
A Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA) foi de encontro a essa resolução e organizou um abaixo-assinado, recolhendo mais de 20 mil assinaturas em tempo recorde, pedindo ao Senado a criação de uma lei que permita a venda de gasolinas E0 e E10, como existem em países com regulação mais flexível para veículos de coleção. Carros com mais de 30 anos, especialmente carburados, são os que mais sofrem com um percentual tão alto de etanol na gasolina.
E as motos carburadas com E32?
As motos carburadas movidas a gasolina começam a enfrentar o mesmo problema dos carros antigos. A diferença na temperatura de queima, o ponto de explosão e outras características químicas transformam a vida do piloto de moto carburada numa bagunça e tanto — o carburador não se autorregula como os sistemas de injeção eletrônica.
Já nas motos injetadas, tudo depende do mapa da central de injeção. Fontes da Royal Enfield explicaram que suas motos já estão sendo programadas para misturas ainda mais altas de etanol, com margem de segurança — afinal, no Brasil é difícil garantir que todo posto esteja vendendo a mistura correta.
Já a Triumph adota uma postura mais conservadora. Segundo nossa fonte na marca, a recomendação oficial é rodar com a gasolina comum — ou seja, dentro do padrão vigente no mercado brasileiro, hoje o E32. As motocicletas são calibradas e testadas em laboratório de acordo com a legislação e com o combustível-padrão comercializado no país, o que as mantém adaptadas ao que está em vigor, sem necessariamente antecipar misturas futuras. A fonte também citou que entidades do setor, como a Abraciclo, seguem cobrando testes mais aprofundados antes da aprovação de qualquer novo aumento no percentual de etanol.
A Royal Enfield, aliás, é o gato escaldado que tem medo de água fria: quando a Himalayan 411 chegou ao Brasil, sua injeção não contemplava o aumento para 27,5% então vigente, e várias motos tiveram o motor comprometido. Depois do recall, a marca ajustou a margem. Resultado: donos de Triumph e Royal Enfield podem notar consumo maior — efeito normal do etanol — mas não devem ter danos com a E32 atual. Ainda segundo a Triumph, qualquer comportamento fora do padrão deve ser levado a um profissional autorizado (concessionária), que faz uma avaliação técnica da moto para identificar a causa.
Gasolina Premium compensa na moto?
Enquanto a comum e a aditivada foram para 32% de etanol, a gasolina Premium segue limitada a 25%, além de ter fórmula de maior octanagem. Essas propriedades — presentes na Podium (Petrobras), na Octapro (Ipiranga) e na V-Power Racing (Shell) — ajudam a queima a ocorrer no momento certo, reduzindo a chance da batida de pino.
Se você não quer correr risco algum e o orçamento não é problema, a Premium é uma alternativa válida — mas nem sempre está disponível em posto de estrada, e por girar menos, passa mais tempo parada no tanque do posto.
Fizemos um levantamento comparando gasolina comum e Premium na nossa moto, ainda na época do E30. Os números — apurados com o app Drivvo, para maior precisão — foram os seguintes:
Preço por litro: Premium 36,8% mais cara em média, na bomba.
Autonomia média (18,37 → 19,81 km/l): apenas +7,9% melhor (sendo 80% cidade, 20% estrada).
Custo por km rodado: Premium 26,4% mais cara.
Sem entrar no custo de eventuais danos ao veículo — só comparando os dois combustíveis — não há vantagem econômica em usar Premium. Ainda precisamos refazer o teste já com a E32 para confirmar se esse quadro muda.
O etanol e a absorção de água: o cuidado que pouca gente conhece
Um ponto ainda comentado é que o etanol anidro é hidrófilo — suas moléculas se ligam com facilidade às moléculas de água presentes na atmosfera. Isso pode gerar corrosão em partes do sistema de abastecimento sensíveis à umidade: tanque, bomba de combustível, bicos de injeção ou carburador, além de vedações, mangueiras e borrachas.
Para quem roda pouco, há relatos de formação de borra no fundo do tanque, capaz de danificar filtros da bomba ou entupir giclês e outras partes do carburador. A dica dos mecânicos — que também recomendamos aqui no Portal Gasolina — é simples: use sua moto, todos os dias se possível. Afinal, andar de moto só faz bem.


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