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Morcegão: não é o batman

Prós e contras de se pilotar uma Harley Davidson Street Glide vivendo próximo a uma das cidades mais populosas do planeta.


Desde que fiz meu último upgrade motociclístico, deixando minha querida Dyna Super Glide companheira de aventuras e desventuras fazer outro biker feliz, e saltei sobre uma Street Glide 2012 tive duas impressões que precisam ser relatadas sobre essa Touring que, em tamanho e peso, fica entre as maiores motocas da marca americana. Na minha opinião, vamos «dar um rolê» sobre os prós e os contras desse monstrão sobre duas rodas.


Street Glide 2012 com ponteiras V&H Monster © José Caetano

A estranhíssima coisa que se sente quando se pilota um modelo touring da Harley Davidson pela primeira vez é a familiaridade com a moto. Quando fui comprar minha moto na Johnny Garage, no Itaim Bibi, SP, acompanhado de meu amigo Nenê Ribeiro, fundador dos Carcamanos MC, a primeira coisa que ouvi dele é que pensaria que a moto sempre tivesse sido minha. Claro que falou isso porque o medo caipira de pegar uma moto enorme e com quase 400kg no trânsito de meio-dia da Capital Paulista estava claramente estampado na face barbuda desse que lhes escreve.


Incentivado pelo piloto mais experiente – e quase desafiado, e nunca se desafia um caipira –, resolvi subir naquele monstrão preto fosco, ligar o enorme motor V-Twin 103 e cair na rua, numa das regiões mais movimentadas de São Paulo para me dirigir à minha casinha branca lá no pé da serra na fabulosa (digna de fábulas) cidade de Taubaté, onde orgulhosamente vivo há alguns anos. Não só isso! Imagine um marmanjo de 100kg, 1,86m, barba branqueando e colete de Moto Clube ter que pedir pra alguém guiar sua moto até fora da capital (onde, aliás, morou), só por receio de nunca ter pilotado uma moto tão grande. Tenha a santa paciência!


Realmente, penso que não exista uma real sensação de pilotar uma Touring pela primeira vez, pois quando você acelera a monstra, parece, de verdade, que aquela moto sempre foi sua, o que é controverso, pois, parada, ela parece um armário que não vai sair fácil do lugar, vai ser impossível de se manobrar, mas, a surpresa se dá no momento que ela começa a rodar, mesmo em baixíssimas velocidades. Daí, dá pra entender porque os batedores de grande parte das forças policiais do ocidente têm em suas viaturas as famosas Road King Police.


O primeiro contra

Saí na rua Dr. Renato Paes de Barros com destino à Av. Juscelino Kubitscheck e daí surgiu o primeiro contra. Enquanto centenas de moto boys com suas cegezinhas passavam no corredor, à milhão por hora, sem nenhum sentimento de amor à vida ou aos retrovisores alheios, desviando dos carros como se aquelas motos japonesas fossem de borracha, lá estava eu, em meio aos automóveis, medindo, no górpi de vista, se o «morcegão» iria caber no corredor sem arrancar retrovisores dos dois lados.



A carenagem dianteira, o famoso «morcegão», é mais larga que as malas laterais traseiras, o que facilita o cálculo de distâncias para uma ultrapassagem aparentemente segura entre veículos em movimento, em linha reta. O novo Código de Trânsito Brasileiro não veda o famoso «corredor» literalmente, mas estabelece que os condutores precisam manter uma distância segura dos veículos entre si. Mas, qual a distância segura quando sua carenagem já tem quase 1m de largura?


Aqui no Brasil, o legislador entendeu que proibir o «corredor» seria justamente inviabilizar o uso de motos em grandes cidades, cuja vantagem é a celeridade de movimentação em trânsitos complicados. Mas, não vá fazer bonito em alguns países europeus, como a Itália ou França, porque lá é proibido, ainda que haja vista grossa dos policiais.


Foi duro, assim de prima, conseguir chegar até a Marginal Pinheiros e só então pegar o corredor com mais segurança, e esse contra, por assim dizer, não foi só no primeiro dia de pilotagem com a moto. Há poucos dias atrás, agora mesmo, mais de um ano rodando com ela, já bem habituado com o tamanho e peso da Street Glide, me vi engarrafado na região da Henrique Schaumann em SP, sob um calor escaldante e tendo que me submeter a ficar parado na fila dos carros, o que fez acender todas as luzes do painel da moto, e algumas que eu nem sabia que existiam, já que ela é refrigerada a ar e necessita estar se movimentando para que seu motor não atinja temperaturas perigosas. Fiz cara de motoqueiro malvadão e saí esbarrando na espelhada mesmo. Antes pagar um espelho que fundir um pistão da moto, já que eu estava just in time para chegar na sessão de fotos e não dava pra encostar e ficar esperando o trânsito melhorar. Cheguei à Av. Brasil com umas tatuagens novas no morcego, mas, pelo menos, a moto não parou.


Acredito que esse seja o maior contra dos modelos Touring, especialmente os equipados com o famoso «batwing fairing» ou «morcegão», cuja largura supera os 98cm (medidos na minha modelo 2012). Elas também são mais compridas (243cm da Street Glide com escape de fábrica) que outras motos e bem mais largas, mesmo outras Harleys, como as Dynas (aprox. 235cm) e Sportsters (aprox. 218cm), o que deixa as manobras em ruas movimentadas, mesmo com o trânsito parado em semáforos, uma tarefa quase hercúlea, sem mencionar seu peso (mais de 398kg em ordem de marcha, aproximadamente, frente aos 290kg da Dyna e 247kg da Sportster).


Pra você ter uma comparação, um Fusca tem, em média, 800kg. Então, imagine manobrar uma moto com metade do peso de um Fusca, com o comprimento maior que muito guarda-roupa por aí, entre carros cujos faróis superam a marca dos mil Reais, cada. Sem mencionar as peça estéticas da sua própria moto, que ficam entre as mais caras entre as marcas de moto do planeta.


Agora são os prós

Mas, por outro lado, na estrada e nas ruas mais pacatas das cidades do interior, a coisa é completamente o inverso. As Touring foram criadas para a estrada e é inegável seu DNA. Desde meu primeiro dia com a moto, logo depois que deixei o perímetro urbano de São Paulo, entrando na Rod. Ayrton Senna, com destino à terra de Monteiro Lobato, Hebe Camargo e Cid Moreira, percebi para que é que a Street Glide foi criada.


O conjunto motor, peso e carenagem é extremamente harmônico e a suspensão traseira regulável a ar favorece muito a estabilidade da motoca. O Twin Cam 103, com suas 1690 cilindradas, controladas por um acelerador eletrônico e um sistema de injeção robusto oferece aceleradas fortes, ainda que em alta velocidade. A bendita te joga pra trás, mesmo você já estando a mais de 100km/h. Basta acelerar que ela pula pra frente.


A sexta marcha garante uma velocidade de cruzeiro bem confortável, mantendo muito facilmente os 120km/h permitidos pelo conjunto Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Na verdade, se não fosse o cruise control de fábrica (que obviamente liguei pra ficar fazendo graça com a mão direita livre), ficaria difícil não superar essa velocidade, porque, pra quem estava acostumado a rodar de Dyna com carenagem pequena (quarter fairing), a ausência de vento no capacete e no peito impede que você sinta o incômodo de rodar acima de 120km/h. Então, esse já é um pró dessa moto incrível.


Na mesma semana que adquiri a moto, fui pra Curitiba pra curtir edição 2019 do BMS e acabei fazendo um videozinho utilizando o aplicativo da GoPro e duas câmeras, uma no capacete e outra no painel.

Outro pró que deve ser mencionado é o sistema de som que é totalmente audível em qualquer velocidade e torna um passeio na estrada muito mais agradável, dando uma trilha sonora para cada viagem (coisa que costumo programar no aplicativo do celular, quando o rolê ultrapassa os 100km). Mesmo na cidade, rodar ouvindo um som ou até mesmo uma rádio de sua preferência faz tudo ficar mais prazeroso. Contudo, no caso da minha Street Glide, que só tem som na dianteira, a garupa já me confirmou que não escuta nada. No caso das Ultras, que têm mais som que o trio elétrico Armandinho, Dodô e Osmar, a garupa consegue até trocar a música nos controles que ficam acessíveis no banco traseiro. As Street Glide CVO também possuem som nos bags traseiros. No vídeo abaixo, que fiz saindo de um trabalho, você pode conferir tanto o som da motoca, rodando um clássico do rock, como a facilidade com que ela chega numa velocidade de cruzeiro, sem nenhum esforço.



Outra vantagem (pró) dos «morcegões» ocorre tanto na chuva como em nuvem de insetos (podem vir, gafanhotos do faraó!). Raramente, o piloto engole um besouro ou molha seu abdômen pilotando uma dessas motos. A chuva e os insetos são contidos em grande parte pela carenagem e a canela só fica molhada por conta da água da pista. Nas ultras, com porta-luvas no mata-cachorro dianteiro, nem isso.


Difícil é ter que limpar a carenagem depois de atropelar um enxame digno de pragas do livro do Êxodo ©José Caetano

Nem preciso mencionar os maleiros, que são o grande diferencial da família estradeira da Harley Davidson (tem modelos Softail que já vem com eles de fábrica também, como a Heritage e a Sport Glide). Eu consigo levar um bom equipamento fotográfico e um laptop, guardados longe da água da chuva, nos dois bags laterais da Street (com chave) para onde vou, o que me faz usar a moto também para trabalho, na maioria das vezes. Outro, e talvez, o maior pró do modelo.


Aliás, nesse sentido nem me atrevo a falar das Ultras, com seu Tour Pack, porque aquilo é uma Caixa de Pandora que guarda de tudo. Se a Street Glide é suficiente para uma viagem grande, a Ultra é praticamente uma casa, um Motorhome. Dá pro sujeito morar na moto.




Ter ou não ter? Eis a questão

Escrevi esse artigo pensando em responder uma dúvida do meu amigo José Henrique Freitas, do grupo MAHD, do Telegram, ou ao menos ajudar a piorar a ansiedade da escolha. Ele tem uma Softail Fat Boy e quer partir para a Street Glide e roda todos os dias em São Paulo, Capital, com seus corredores apertados e cheios de motoboy fazendo seu trabalho.


Os contras da minha moto foram justamente na cidade grande, o que é muito relativo. Pois, já rodei em horários fora de pico em S. Paulo, e consegui tranquilamente pilotar junto ao trem do meu motoclube por avenidas cheias. Fora isso, não tenho o que reclamar da moto, mesmo tendo passado um mês querendo jogá-la do barranco, tentando solucionar uma falha elétrica que se resumiu em um mísero fio solto no conector de um sensor (mas, essas coisas acontecem com qualquer veículo).


Tudo é uma questão de gosto (1), sem dúvida; valores de veículo + manutenção (2); e, destinação ou uso (3). Desde que tive um encontro pessoal com a luz (fraca e amarelada) do farol vagabundo da Harley e me converti em harleyro, tive o sonho de comprar uma Street Glide, o que já define o primeiro critério (gosto). A que comprei cabia no bolso e o ano não era tão distante na história, além da quilometragem compatível e procedência conhecida, o que me garantiria uma manutenção dentro do orçamento (pelo menos assim pensava). Segundo critério, valor do veículo + manutenção: checked! Os bags e o conforto em viagens me permitiriam levar meu equipamento fotográfico até os diversos locais que exerço meu mister de fotógrafo ou jornalista, sem chegar cansado ou ter que me auto-torturar em transportes públicos ou, pior ainda, ter que ir de carro (Deus me livre!), o que completou o terceiro critério, destinação ou uso, autorizando-me a partir da Dyna para a Street Glide.


Posso estar enganado, mas dificilmente eu sairei desse modelo de Harley para outro, talvez a Road Glide, que chegou há pouco tempo no Brasil e também tem seu charme, com aquela cara de tubarão. Também penso que provavelmente não partiria para uma Ultra (daí ela já soberbaria o terceiro critério). Quem sabe eu comece a colecionar essas encrencas, venda meu fusca e busque uma Sportster carburada pra dar aquele rolezinho Easy Rider, sem culpa e sem pretensões, não esbarrando nos retrovisores da vida?!


* O autor, apesar de estar amando sua Street Glide, ainda sente saudade da facilidade de pilotagem de sua Dyna Super Glide com guidão T-bar de 13" estilo Dynamite Crew, ao atravessar os corredores da capital paulista, mas não sente saudade do dinheiro que gastou trocando as molas do compensador e o bendix do motor de partida do TC96 com inhaca de fábrica. Coisa que o 103 não tem mais, graças a Deus. Também não sente saudades de rodar sem trilha sonora.

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